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Telefônica inova para não ser um ‘cano burro’

Autor(es): Talita Moreira | De São Paulo
Valor Econômico - 04/11/2011
 

Estalar os dedos e acender as luzes de casa. Fechar a persiana, aumentar o volume da música e trocar de canal somente com gestos. A tecnologia, que permite deixar de lado o controle remoto, foi desenvolvida pelo centro de inovação da Telefônica no Brasil e poderá resultar na primeira patente da companhia no país.
Em setembro, a operadora solicitou ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) o registro do sistema, que será usado nos serviços de automação residencial da empresa.
Mais que uma novidade tecnológica, o controle por gestos é um exemplo da guinada estratégica que está sendo conduzida pela companhia espanhola. "A Telefônica quer deixar de ser uma operadora de redes para ser uma provedora de soluções integradas de telecomunicações", afirma Leila Lória, diretora-executiva da empresa. A nova diretriz é usar a infraestrutura de telefonia fixa e móvel da operadora para prestar serviços digitais.
Essa mudança de curso ficou evidente há algumas semanas, quando a companhia espanhola anunciou uma reestruturação organizacional e a criação da área de negócios digitais. Com sede em Londres, a unidade tem como objetivo conduzir o processo de inovação da empresa, desenvolver aplicativos, serviços e novos usos da tecnologia. O propósito é evitar que a Telefónica se transforme no que o setor de tecnologia chamada de "dumb pipe", um "cano burro" que apenas trafega bytes de conteúdo de terceiros em vez de oferecer serviços de valor agregado.
O Brasil, um dos mercados mais importantes para o grupo, é parte estratégica desse processo. A companhia abriu em São Paulo, no ano passado, seu primeiro centro de inovação fora da Espanha [foi onde se desenvolveu o sistema de controle por gestos]. Depois dele, foram criadas unidades no Vale do Silício e em Londres.
"A operadora que não participar do processo de inovação vai ser excluída de um segmento enorme de receitas que vai crescer nos próximos anos", observa o diretor de inovação da Telefônica Brasil, Pablo Larrieux. "Esse caminho é estratégico para o crescimento do grupo."
No mundo todo, operadoras de telecomunicações enfrentam dificuldades para continuar aumentando as receitas de seus serviços tradicionais. Nos seis primeiros meses deste ano, a Telefónica faturou € 30,9 bilhões, com alta de 6,3% sobre o mesmo período do ano passado. O lucro líquido consolidado do grupo espanhol, no entanto, recuou 16,3% e ficou em € 3,1 bilhões. O desempenho só não foi pior devido à expansão do mercado latino-americano e de serviços de dados e TV por assinatura. No Brasil, o primeiro resultado após a incorporação da Vivo indicou alta de 6,6% na receita e de 46% no lucro líquido semestral. O balanço do terceiro trimestre será divulgado na próxima semana.
Em paralelo às pesquisas conduzidas internamente, a Telefônica Brasil decidiu prospectar e atuar como incubadora de projetos na área de tecnologia da informação e comunicações (TIC) desenvolvidos por pequenos empreendedores. No fim deste mês, a Telefônica vai selecionar dez projetos nos quais vai investir entre US$ 30 mil e US$ 70 mil e fornecer assessoria técnica e financeira. Pelo programa, batizado de Wayra, a operadora se tornará acionista com até 15% dessas empresas novatas.
Se forem bem-sucedidas, a Telefônica poderá comprá-las ou ajudá-las a encontrar um investidor. O programa recebeu 518 inscrições no Brasil - o cadastramento dos interessados terminou no fim da semana passada. O Wayra já foi realizado em outros países e, segundo Larrieux, vai ao encontro do objetivo da operadora de buscar a inovação tecnológica em parceria com o mercado. "Nossa capacidade de inovação melhora se estamos inseridos no ambiente empreendedor brasileiro", diz.
De acordo com Larrieux, grande parte dos inscritos tem entre 30 e 40 anos de idade. Mobilidade, redes sociais e geolocalização são alguns dos temas mais frequentes nos projetos apresentados.
No ano passado, a Telefónica investiu € 4,8 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. A subsidiária brasileira destinou R$ 2,9 bilhões a essa atividade.

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